"Bibiana tinha um rosto redondo, olhos oblíquos e
uma boca carnuda em que o lábio inferior era mais espesso que o
superior. Havia em seus olhos, bem como na voz, qualquer coisa de
noturno e aveludado. (...) Pedro Terra às vezes inquietava-se pensando no gênio da filha. Era
voluntariosa, duma teimosia nunca vista, e dum orgulho tão grande que
era capaz de morrer de fome e de sede só para não pedir favores aos
outros. No entanto, quem olhasse para ela julgaria, pelo seu suave
aspecto exterior, estar diante da criatura mais meiga e submissa do
mundo."
Trecho do romance Um certo capitão Rodrigo (1949), do escritor Érico Veríssimo, que compõe a robusta trilogia O Tempo e o Vento (finalizada em 1962).
Retratos, Caricaturas, Ilustrações, Textos sobre Arte e História da Arte. Sejam todos bem vindos! marquesaleixo@yahoo.com.br
24 abril, 2012
21 março, 2012
19 março, 2012
ALGUMAS IDEIAS PARA UM PARALELO ENTRE O TRIO: CORINGA, DUAS-CARAS E BATMAN (THE DARK KNIGHT) E A NOÇÃO DE ARTE CONTEMPORÂNEA (numa noite de insônia e ócio).
Sabemos da dificuldade extrema de definir e delimitar os contornos do que seja a arte contemporânea, nas suas expressões plurais e também na crítica, que constitui posicionamentos e apreciações diversas e quase sempre divergentes em relação a ela.O que nos propomos aqui é um exercício de reflexão mais livre e mesmo aporístico a respeito dessas concepções e impressões a partir de uma obra da indústria cultural cinematográfica estadunidense: o filme Batman, O Cavaleiro das Trevas (2008), dirigido por Christopher Nolan e suas correspondências e divergências com a noção corrente de arte contemporânea.
Alguns predicados comumente atribuídos à arte contemporânea são que ela:
- Relaciona, historicamente, política e identidade - Há uma tradição por parte de determinados grupos politicamente engajados de, através de ações artísticas, buscar a afirmação de uma identidade (negros, mulheres, homossexuais). A princípio na esteira dessa tradição opera-se, contudo, no filme uma inversão dela ao ter como atores da performance os internos do hospício de Arkhan, perfil majoritário entre os homens do Coringa. Ao mesmo tempo em que protagonizam como grupo a performance, ambiguamente realizam a negação, dessa vez não do estereótipo, mas da noção mesma de identidade e seus atributos elencados e criticados por Foucault e Bourdieu, entre outros (constância, coerência, presivibilidade,inteligibilidade, confiabilidade, autoridade). O próprio Coringa constitui a figura do "outsider" por excelência (sem nome,digitais, DNA, registro dentário ou histórico de qualquer espécie. Mesmo sua biografia varia de interlocutor para interlocutor, constituindo uma performance que procura conversar com a sombra do outro, com seu aspecto negado e reprimido); Percebemos aí outra característica atribuída à arte contemporânea que é aproximar-se do gosto pelo trocadilho, pelas inversões, jogos complexos de movimentos sucessivos, trocas de sinal, ambigüidades.
- Privilegia o corpo como meio de expressão, levando-o ao extremo - Desafia os limites habituais entre a arte e a vida; (como quando o Coringa coloca-se em meio ao tráfego, em linha de colisão, literalmente "na contra-mão", Duas-Caras alvejando o motorista de Maroni estando no interior do veículo em alta velocidade. As cicatrizes de Bruce Wayne e a própria máscara do Coringa (e depois a do Duas Caras) inscrevem-se na própria carne, inseparáveis desta) ilustrando sua condição (marcados, cindidos em si mesmos, mas expressamente em conformidade com um mundo em crise);
- Incorpora e transforma o espaço, especialmente o urbano (carro de bombeiro em chamas no meio da avenida (mais um exemplo de inversão), explosão do hospital, interdição das pontes e viadutos de Gotham);
- "_Hoje à noite vocês participarão de um experimento sociológico." (Coringa)
- "_Havia um projeto nos anos 60 chamado SkyHook..." (Lucius Fox)
- "_Pela magia do diesel e do nitrato de amônia eu estou pronto a fazê-los decolar às alturas." (Coringa)
- "_Não se trata de dinheiro, trata-se de mandar uma mensagem" (Coringa)
- "_Esse cara não tem regras!" (gangster em relação ao Coringa)
- "_A única maneira sensata de se viver nesse mundo é sem regras." (Coringa)
- "_Vê, eu não sou um monstro, só estou um pouco à frente!" (Coringa)
- Comunica-se com o público por meio de figuras emblemáticas da indústria cultural, signos e símbolos do cotidiano e utiliza-se da máquina do espetáculo para que esta capte e retransmita sua mensagem (a chuva de cartas, a figura do palhaço maldito, o "Batman" enforcado na janela);
- Combina elementos híbridos da forma consagrada - teatro (máscara, maquiagem, capa, fantasia, uniforme), artes visuais, pintura, escultura, literatura com o uso de mediações tecnológicas (televisão, cinema, informática).
- " _ Sou um cara de gosto simples. Aprecio dinamite, pólvora e gasolina. Sabe o que essas três coisas têm em comum? São baratas." (Coringa)
- "_Belo, não acha?"
- Faz-se coletivamente, questionando o mito do gênio subjetivo do atelier embora conserve o aspecto fetichista de marca (Coringa e pessoas com quem estabelece parcerias temporárias de uma lado e Batman (um mega empresário), Alfred, Lucius e todo o departamento de pesquisa ligado ao subsídios do governo de outro lado - Lei Rouanet*? fica a pergunta);
- Restringe-se a um pequeno círculo de iniciados (modo de seleção do Coringa; círculo político, social e econômico do Batman)
Parece-nos que a obra cinematográfica reafirma de um lado a noção formalista da arte como imparcial, arte pela arte e do outro ressuscita um certo funcionalismo à medida em que vincula a arte ao mundo maravilhoso da inovação e da criação, desta feita não mais artística e artesanal mas tecnológico-corporativa. O script reafirma o mito da neutralidade descomprometida da arte, quando na verdade é sabido que ela, especialmente na performancedos anos 60 e 70, tentava fugir à lógica do capitalismo em expansão - que por sua vez apresentava-se, e agora mais do que nunca, como única via de liberdade, democracia e felicidade. Por essa razão tais artistas são rotulados como puramente irracionalistas e em última instância, anárquicos. Entretanto, se o Coringa afirma ser um cão e atacar como um (cf. o caráter originário do cinismo no mundo grego), acontece que mesmo cães raivosos têm um dono como afirma Duas Caras: "_O Coringa é apenas um cão raivoso (cachorro louco). Eu quero quem o soltou da coleira". De maneira alguma os artistas podem se eximir de suas reponsabilidades e de sua função social escondendo-se atrás de uma pretensa imparcialidade ou neutralidade, ou ainda sob a impostura do ismo, do estilo (como o "dadaísmo"**).
Quanto à utopia tecnológica de paz social pelo controle por parte do Batman sabemos há tempos das muitas mazelas que o sistema de monopólio capitalista impõe sobre as economias e, em últma instância sobre os cidadãos destituídos de seus direitos nas periferias dos grandes centros e sobretudo na periferia do capitalismo global. Parece que, no fim das contas, não há heróis nessa história. É isso?
*Sérgio Paulo Rouanet, Secretário de Cultura, lança Lei Federal de Incentivo à Cultura (1991), garantindo isenções fiscais, seja nos âmbitos municipal (IPTU, ISS), estadual (ICMS) ou federal (IR) - Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac). A Lei é regulamentada em 1995. Concomitantemente, empréstimos junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), investindo na reurbanização de centros históricos como área de turismo cultural. Nos dizeres de Renata da Motta:“A partir dos anos de 1990 (…) [a] preservação do patrimônio histórico de centros urbanos torna-se prioridade nos discursos governamentais, com foco no potencial turístico e na construção de equipamentos culturais de grande porte. Esse discurso encontrava-se em consonância com a visão empresarial sobre gestão urbana proposta nos planos estratégicos das agências multilaterais como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento que, posteriormente pautariam o convênio do Programa Monumenta, voltado à recuperação do patrimônio histórico de diversas cidades brasileiras. (…) Com a implantação da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), consolida-se o discurso de substituição de parte da ação do Estado pela dos empresários e a modernização da gestão pública. A cultura brasileira é elevada (sic) a instrumento de marketing nacional, reafirmando o país como um destino turístico privilegiado pela sua singularidade cultural. Nesse movimento criou-se um ambiente favorável ao fomento no Brasil de um nicho já desenvolvido nos países centrais: das intervenções urbanas que incluem equipamentos culturais, envolvendo artes e instituições financeiras” (MOTTA, Renata Vieira da. Museu e Cidade: o impasse dos MAC's, Tese de doutorado, FAUUSP, São Paulo, 2009. p. 76-77).
**De fato, segundo declarações dos artistas envolvidos à epoca com essa expressão, não existe dadaísmo ou o movimento dadaísta, só o Dada. Ver os manifestos proferidos pelo poeta romeno Tristan Tzara. O dadaísmo russo, contudo, já apresenta uma outra conformação, abarcando um componente de ironia política bem mais pronunciado.
*Sérgio Paulo Rouanet, Secretário de Cultura, lança Lei Federal de Incentivo à Cultura (1991), garantindo isenções fiscais, seja nos âmbitos municipal (IPTU, ISS), estadual (ICMS) ou federal (IR) - Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac). A Lei é regulamentada em 1995. Concomitantemente, empréstimos junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), investindo na reurbanização de centros históricos como área de turismo cultural. Nos dizeres de Renata da Motta:“A partir dos anos de 1990 (…) [a] preservação do patrimônio histórico de centros urbanos torna-se prioridade nos discursos governamentais, com foco no potencial turístico e na construção de equipamentos culturais de grande porte. Esse discurso encontrava-se em consonância com a visão empresarial sobre gestão urbana proposta nos planos estratégicos das agências multilaterais como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento que, posteriormente pautariam o convênio do Programa Monumenta, voltado à recuperação do patrimônio histórico de diversas cidades brasileiras. (…) Com a implantação da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), consolida-se o discurso de substituição de parte da ação do Estado pela dos empresários e a modernização da gestão pública. A cultura brasileira é elevada (sic) a instrumento de marketing nacional, reafirmando o país como um destino turístico privilegiado pela sua singularidade cultural. Nesse movimento criou-se um ambiente favorável ao fomento no Brasil de um nicho já desenvolvido nos países centrais: das intervenções urbanas que incluem equipamentos culturais, envolvendo artes e instituições financeiras” (MOTTA, Renata Vieira da. Museu e Cidade: o impasse dos MAC's, Tese de doutorado, FAUUSP, São Paulo, 2009. p. 76-77).
**De fato, segundo declarações dos artistas envolvidos à epoca com essa expressão, não existe dadaísmo ou o movimento dadaísta, só o Dada. Ver os manifestos proferidos pelo poeta romeno Tristan Tzara. O dadaísmo russo, contudo, já apresenta uma outra conformação, abarcando um componente de ironia política bem mais pronunciado.
13 março, 2012
Eu com pra2o, ela compra2ia, nós compra(s2)eremos
Logo tipo,
não é preciso TV
pra sentir, pra saber.
Leve, de olhos fechados,
a comer-se, a alisar,
sobretudo deixar marcas,
sem anúncio, sem etiqueta.
Amor é com sumo
(propaga, anda!).
Produto é só mercadoria.
não é preciso TV
pra sentir, pra saber.
Leve, de olhos fechados,
a comer-se, a alisar,
sobretudo deixar marcas,
sem anúncio, sem etiqueta.
Amor é com sumo
(propaga, anda!).
Produto é só mercadoria.
24 fevereiro, 2012
Repisando Metáforas Pessoais
Mais que as percepções abstratas das impressões intelectuais e sentimentais traduzidas em palavras, esbarram-me em Pessoa, há muito antecipadas, as imagens mesmas que eu, iludido, estivera convencido de ter acabado de inventar!
Quase chego a querer acreditar haver céu só pra poder encontrar Pessoa. Mesmo no inferno seria consolo.
No purgatório, a perfeição.
"Nunca pude convencer-me de que podia, ou de que alguém seguramente
poderia, dar alívio certo ou profundo, e muito menos cura, aos males
humanos. Mas nunca, também, pude tirar deles o pensamento; a mais
pequena angústia humana - mais, a mais leve imaginação dela - sempre me
angustiou, me transtornou, me tirou do poder de me concentrar e de me
egoizar. O convencimento da futilidade de toda a terapêutica para a alma
deveria, por certo, erguer-me a um píncaro de indiferença, entre o qual
e as agitações da terra velassem tudo as nuvens daquele mesmo
convencimento. O pensamento, porém, poderoso como é, nada pode contra a
rebeldia da emoção. Não podemos não sentir, como podemos não andar.
Assim assisto, e assisti sempre, desde que me lembro de sentir com as
emoções mais nobres, à dor, à injustiça e à miséria que há no mundo do
mesmo modo que assistiria um paralítico ao afogamento de um homem que
ninguém ainda que válido, poderia salvar. A dor alheia tornou-se em mim
mais do que uma só dor - a de a ver, a de a ver irreparável, e a de
saber que o conhecê-la irreparável me empobrece até da nobreza inútil de
querer ter os gestos de a reparar. A minha falta de impulso foi sempre,
afinal, a fonte da origem destes males todos - o não saber querer antes
de pensar, o não saber entregar-me, o não saber decidir do único modo
como se decide - com a decisão, que não com o conhecimento -, burro de
Buridan morrendo na bissectriz matemática da água da emoção e da palha
do esforço, podendo, se não pensasse, morrer sim, porém não de fome nem
de sede.
Tudo, quanto penso ou sinto, inevitavelmente se me
volve em modos de inércia. O pensamento, que em outros é uma bússola da
acção, é para mim um microscópio dela, que me faz ver universos a
atravessar onde um passo bastara para transpor - como se o argumento de
Zenão, da intransponibilidade de cada espaço, que, por ser infinitamente
divisível, é pois infinito, fosse uma droga estranha com que me
houvessem intoxicado o organismo espiritual. E o sentimento, que em
outros se introduz na vontade como a mão na luva, ou a mão nos copos da
espada, foi sempre em mim uma outra maneira de pensar - fútil como uma
raiva com que trememos até nos não podermos mexer, espécie de pânico da
exaltação que, como o pânico, deixa colado ao chão o medroso a quem o
mesmo medo deveria fazer fugir.
Toda a minha vida tem sido uma
batalha perdida no mapa; a cobardia nem sequer foi no campo, onde talvez
a não houvesse, mas no gabinete do chefe do Estado Maior, e de ele a
sós com a sua convicção da derrota. Não se ousou o plano porque haveria
de ser imperfeito; não se ousou torná-lo perfeito, ainda que não pudesse
realmente sê-lo, porque a convicção de que não seria perfeito quebrou a
vontade com que ele, ainda que imperfeito, sempre se poderia tentar.
Nem me ocorreu nunca que o plano, embora imperfeito, poderia ser mais
perfeito que o do inimigo. É que o meu vero inimigo, vitorioso contra
mim desde Deus, era aquela mesma ideia de perfeição, que me saía à
frente antes que todas as hostes do mundo, na vanguarda trágica de todos
os comandos do mundo."
s.d.
Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990.
- 197.
«A Educação do Estóico»
19 fevereiro, 2012
Been há long time (in fact a have bread one) que não shove it na minha aorta.
Queria colar no seu pescoço. Ser colar e circular.
Ao invés sento só, pés coçando.
Jugo lar.
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