25 agosto, 2010

Lights off.

Apoiado no batente da cozinha, completamente só, repensando em banho-maria as inúmeras coisas estúpidas que costumo (não) fazer quando a questão é me expressar direta e claramente às pessoas com que gostaria de conversar.
A solidão tem seus surdos prazeres como esses momentos repentinos, de sobressalto no silêncio-escuro.
E embora o fato de morrer sozinho, sem família, não seja algo que me surpreendesse grandemente, às vezes sinto - confesso - que estou ficando bastante velho pra ficar assim suspirando pelos cantos...

Ok! Pretty dramatic. rsrs
Culpa da lua. Ela está mesmo uma beleza hoje.


Eu ontem fui dormir todo encolhido
Agarrando uns quatro travesseiros
Chorando bem baixinho, bem baixinho, baby
Pra nem eu nem Deus ouvir
Fazendo festinha em mim mesmo
Como um neném, até dormir
Sonhei que eu caía do vigésimo andar
E não morria
Ganhava três milhões e meio de dólares
Na loteria
E você me dizia com a voz terna, cheia de malícia
Que me queria pra toda vida
Mal acordei, já dei de cara
Com a tua cara no porta-retrato
Não sei por que que de manhã
Toda manhã parece um parto
Quem sabe, depois de um tapa
Eu hoje vou matar essa charada
Se todo alguém que ama
Ama pra ser correspondido
Se todo alguém que eu amo
É como amar a lua inacessível
É que eu não amo ninguém
Não amo ninguém
Eu não amo ninguém, parece incrível
Não amo ninguém
E é só amor que eu respiro.


(Eu não amo ninguém, Barão Vermelho do álbum Maior Abandonado, 2000.)

20 agosto, 2010

Eu rasgo seda à bessa...

"_ É lindo, destruir palavras. Naturalmente, o maior desperdício é nos verbos e adjetivos, mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser eliminados. Não apenas os sinônimos; os antônimos também. Afinal de contas, que justificação existe para a existência de uma palavra que é apenas o contrário de outra? Cada palavra contém em si o contrário. "Bom", por exemplo. Se temos a palavra "bom," para que precisamos de "mau"? "Imbom" faz o mesmo efeito - e melhor, porque é exatamente oposta, enquanto que mau não é. Ou ainda, se queres uma palavra mais forte para dizer "bom", para que dispôr de tôda uma série de vagas e inúteis palavras como "excelente" e "esplêndido" etc. e tal? "Plusbom" corresponde à necessidade, ou "dupliplusbom" se queres algo inda mais forte. Naturalmente, já usamos essas formas, mas na versão final da Novilíngua não haverá outras. No fim, todo o conceito de bondade e maldade será descrito por seis palavras - ou melhor, uma única. (...) Não vês que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento? No fim, tornaremos a crimidéia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la. Todos os conceitos necessários serão expressos exatamente por uma palavra, de sentido rigidamente definido, e cada significado subsidiário eliminado, esquecido. Já, na Décima Primeira Edição, não estamos longe disso. Mas o processo continuará muito tempo depois de estarmos mortos. Cada ano, menos e menos palavras, e a gama da consciência sempre um pouco menor. Naturalmente, mesmo em nosso tempo, não há motivo nem desculpa para cometer uma crimidéia. É apenas uma questão de disciplina, controle da realidade. Mas no futuro não será preciso nem isso. A Revolução se completará quando a língua for perfeita."
(ORWELL, George - 1984)

Uma das coisas que me atrai e que admiro por demais nas pessoas é a preocupação com o emprego da palavra exata no lugar apropriado e no momento preciso.
Signos aleatórios, convencionais e já dados, palavras são objetos carregados de significado que aprendemos a usar ao longo da vida. Salvo as poetas e os poetas, que pra isso têm licença, nós, o grosso dos mortais, muito pouco preocupamo-nos em modificar os termos cotidianos que utilizamos para melhor expressar o que dentro nos vai. Tendo ultrapassado o aprendizado da língua, depois de conquistá-la - a ela então nos rendendo - na maior parte do tempo simplesmente não nos damos conta do caráter automático do exercício cotidiano da fala e da escrita.
Somente quando nos obriga um fator externo (quando nos são exigidas as formalidades de um requerimento ou contrato legal) ou quando nos impele uma moção interna, significativa (uma necessidade de expor impressões pessoais e sentimentos vitais, como na poesia e nas declarações amorosas), somente quando das palavras depende toda a diferença entre ser compreendido e não sê-lo, sem sombra de dúvida, é que a maioria das pessoas se inclina numa reflexão sobre o uso meticuloso das palavras. Quando o que está em jogo é um pedaço de terra (ou de um coração), elas são prontamente solicitadas a cumprir seu importante papel de esclarecer, de assegurar que estamos nos fazendo entender.
Há, no entanto, pessoas que muito naturalmente (e à custa de esforço e exercício continuados) têm o dom de se fazer entender e de ilustrar conceitos e convicções pelo uso do discurso verbal e/ou escrito. São pessoas prolixas, articuladas e convincentes.
Não adentrarei aqui a ambiguidade da retórica política nem a estrutura perversa em que se converteram os sistemas de comunicação da coletividade, sutis veiculadores de ideologias e lugares comuns, conformadores de opinião que pretensamente "fazem a cabeça da massa alienada". Não o farei, não porque não me preocupe seriamente com tais questões, mas por duas razões muito simples e que estão intimamente relacionadas: primeiro porque, intelectualmente falando, não me vejo suficientemente preparado para tal empreitada, para uma crítica dessa natureza, complexidade e de tamanhas proporções; segundo porque sinto que definitivamente a vocação política não está em mim, assim como não estão a facilidade e a perene disposição afetiva para o diálogo interpessoal. A natureza de meus escritos é preponderantemente de reflexão interna, busca de uma palavra que me proporcione um diálogo interno na busca de soluções para problemas inerentes à minha própria personalidade, exercício de busca da clareza, esvaziamento, aproximação, contraste e abandono de conteúdos para que, nessa dialética intimista, outras idéias possam tomar lugar àquelas que, paulatinamente, vão sendo descartadas. Dialética possível? Viável? Não sei ao certo. É provável que o leitor (se algum há) experimente profundo enfado frente a essas maciças e herméticas proposições e que tal texto seja efetivo soporífero, bastante recomendado à insônia crônica. A mim, me ajudam a organizar o caos dos pensamentos, das impressões e dos sentimentos.
Mas, à parte isso, gostaria sobretudo de fazer aqui o elogio às pessoas cuja preocupação com a expressão e cuidado com a língua tornam-se essenciais a ponto de constituirem, além de objeto de cuidado acadêmico, meio de subsistência, fonte de expressão e de gozo pessoais - como são para mim, o trabalho e o olhar cioso da imagem pictórica. Admiro tais pessoas com (e não há aqui outras palavras que caibam nesse espaço e contexto a não ser estas) verdadeiro fascínio.
Letra e Imagem são duas dimensões distintas, mas que caminham inseparáveis, complementando-se mutuamente e, nesse caminhar, seguem enriquecendo o panorama cultural, humano, historicamente construído - e mais recentemente em processo de (des)construção.
São campos que, simultaneamente, constituem e ilustram a própria vida. Espaços em que clareza e mistério, discurso e silêncio, cheio e vazio, olhar e imaginar assumem peso e importância equivalentes, ainda que particulares.
Por isso, e para finalizar, de coração reitero: viva o ato do dizer, salve a arte do calar!
Pra bom entendedor...

19 agosto, 2010

Cantada

Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana

Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana

(GULLAR, Ferreira in Dentro da Noite Veloz, 1962 - 1975)

Como andar de bicicleta.

Quando era pequeno e morava na casa de meus pais, tinha às vezes vontade de andar de bicicleta.
Não era simples.
Primeiro porque, quando criança, nunca tive bicicleta. Foram duros os tempos que se seguiram à abertura política, marcados pela inflação galopante, pelos infindáveis pacotes econômicos e malabarismos mirabolantes do Ministério da Fazenda. Lembro de alguns nomes, ainda sem compreendê-los totalmente. Figueiredo, Tancredo Neves (e aquela inesquecível cena do avião ao som de Coração de Estudante)... Congelamento de preços, gatilho salarial, Delfim Neto. Cruzeiro, Plano Cruzado, corte de zeros da moeda, Cruzado Novo. Sarney - "Seja Fiscal do Sarney!" Ulisses Guimarães e a relação infame do Deputado com o herói da Odisséia: "_Seria o helicóptero de Ulisses ao mar, obra de Netuno?"
Tudo isso e a vida megacomplicada de meus pais, dois nordestinos entre os muitos que, fugindo da fome, lutavam pra se estabelecer em São Paulo. Trabalhando duro pra criar minhas irmãs e eu, pra dar de comer a todos nós, nos educar dignamente. A eles devo tudo o que há em mim, de melhor e pior. Lhes devo cada dia da vida como um presente e uma carga.
Tempos difíceis, sem dúvida. Por conta disso nunca tive muitos supérfluos como vídeo game, por exemplo (e, honestamente, na época nunca me fez falta). Nem bicicleta.
Minhas brincadeiras prediletas consistiam em desenhar na rua de terra, construir castelos de areia com cavernas, pontes (e, quando chovia, com fossos)... Empilhar pequenos blocos de madeira que trazia meu pai do depósito onde trabalhava. Posso ainda sentir o cheiro.
Rabiscar os livros e folhas secretamente estocados sob o assento do sofá quadriculado azul.
Mas a real razão porque demorei tanto a andar de bicicleta - minha primeira me veio já na adolescência, mas soía, é claro, haver uma ou outra à mão -, a razão é que sempre fui muito cagão. rsrs
Me torturava entre o que seria pior caso eu caísse: a dor física de esfolar os joelhos ou a suprema vergonha moral de ser apontado fazendo coisas estúpidas. Chegava mesmo ao cúmulo de treinar no corredor lateral de casa (e mesmo isso quando os de casa não estavam olhando).
Muito tardiamente e sozinho (sempre sozinho) simplesmente aprendi, num dia qualquer, na magrela de um amigo. Que felicidade! Passei o dia todo contornando o canteiro central da avenida, tentando alçar vôos por sobre as lombadas (se diz lombadas, aqui? Quebra-molas!).
Dia bom.
À parte o fato de que não me lembro qual foi a última vez que andei de bicicleta (e o não menos triste fato de que continuo sem grana pra comprar uma! kkkk), sei que sou capaz de fazê-lo. Não sem uma boa dose de desalinho, é verdade, e uma tragicômica deselegância, mas o essencial é que certas coisas não se esquecem...
Desconfio que não seja muito saudável mas meu coração quase nunca pedala. Vez em nunca se aventura pela cidade. Vez ou outra ainda contorna o canteiro. Mas a verdade, verdade mesmo é que continua, na maior parte do tempo, a se espremer dentro da segurança invisível dos muros da casa materna, se apoiando pelas paredes do corredor, fingindo velocidade. E equilíbrio.
Isso nos fez - eu e meu coração - meio raquíticos. Cansados e cansativos. Graves. Compassados. Pedantes em vez de pedalantes.
A sensação de, depois de tanto tempo, pensar em voltar à rua é estranha e a determinação em fazê-lo, me sabe um pouco assustadora. As ruas mudaram, estão mais cheias, mais velozes. Há sinais que não entendo.
Minha bicicleta está velha e descalibrada.
É anacrônica, meio ridícula, com seu cestinho e uma buzina fanha e espalhafatosa. É meio tosca, reconheço, mas me serve.
É pesada, mas é minha.
Vou lubrificar a corrente (eterna mania de meu pai, em tudo pôr óleo! Pena não funcionarem com determinados atritos). Vou tentar insuflar alma nos pneus velhos, apertar os parafusos, (me) lixar (para) a ferrugem. Que mais?
Trocar as sapatas de freio, que minha inclinação é ir devagar, na defensiva, ao menos uma mão sempre no guidon...
Ah! e vou levar flores no cesto, sim. Foda-se (taí mais um chavão paterno)!
É começar.
O máximo que pode acontecer é sair machucado. Ou machucar alguém (pedir desculpas também está implícito no ato de aprender a dirigir).
Além disso, não importa mesmo o que se faça, parado ou correndo, não se pode fugir às coisas estúpidas. Temos com elas encontros marcados.
O negócio é botar a cara pra fora e dar uma volta.
Vocês vão ver. No fim da tarde já vou estar loucamente apostando corrida com ônibus.

16 agosto, 2010

Hand me a mirror, please.



"Oh, my... Where did I go?"
(Greg Kinnear no papel de Simon Bishop, em As Good as It Gets (Melhor é Impossível), filme dirigido por James L. Brooks, 1997.)

14 agosto, 2010

Estado: Líquido

Existem pessoas que, inexplicavelmente, nos fazem sentir à vontade.
Elas têm, assim que chegam, o poder de transformar qualquer ambiente em lar e aconchego. Quando digo 'poder' estou claramente atribuindo valor a essa capacidade ou atributo. Em grande parte por, como introvertido por excelência, não possuir esse caráter.
Creio não ser algo absolutamente intencional. Parece ser uma disposição natural, inconsciente, de tais pessoas que, são agradáveis porque... são! rs
Pessoalmente falando é uma experiência rara perceber essas pessoas iluminadas.
E o mais engraçado é que esse poder de certa forma escapa a uma definição, o que paradoxalmente aumenta o fascínio por elas. Não se preocupam muito com auto-análise. Às vezes nos dão a impressão de não ligar mesmo pra análise nenhuma! Fogem a toda a (nossa) compulsão classificatória.
Desenvoltura? Simples alegria? Talvez espontaneidade... Acho que é o mais próximo que pode chegar uma aproximação verbal. É uma espécie de pessoa afortunada, dona de uma riqueza, de um patrimônio que é inútil pra si mesma mas que, alheia a esse valor incauculável, inadvertidamente o distribui generosamente aos outros.
É patente, é visível, que ela não precisa comprar ninguém. Está estampado (e essa alegoria de cor não poderia ser mais própria, mais feliz).
Refletindo sobre elas (prestando atenção nos muitos significados, mas indo além deles, 'entrando na metáfora'), compreendi finalmente o sentido da alegoria da fonte. Definitivamente elas são fontes de água fresca, límpida, transparente, sonora, abundante, de maneira alguma insípida, torrente caleidoscópica, inesgotável... Tais pessoas são vitais. Garantem a experiência de uma vida vivida, saciada.
Ao ler esse texto cheio de clichês (porque quando as palavras não bastam à expressão, é inevitável cairmos em clichês - quão paradoxal!) talvez uma ou outra pessoa fará o percurso que fiz, se reconhecerá como o andarilho que foi levado por esse percurso.
Enfim, essas pessoas nos teletransportam a dimensões onde podemos pensar e falar simultaneamente em várias dimensões.
Em que prestar atenção enquanto conversamos com elas? No modo como falam? Na boca que abre e fecha? Na altura do tom? No timbre? No conteúdo do discurso? Nas palavras? No que essas palavras representam? No que elas significam? Na cor dos olhos? No olhar? No corpo? No cheiro? Em que parte? No gesto? No todo? Tudo fala! Essas pessoas são como que uma somatória de variadas expressões de arte (são pintura, são música, são narrativa, são poesia). São mais que a somatória pois são o fundamento que possibilita e o lugar de onde brotam essas experiências tornadas reais. Ainda assim, escapam a qualquer generalização abstrata dessa natureza porque concretas, reais, idiossincráticas.
Independente de nosso agnosticismo, pra lá de nossas dúvidas e convicções, elas nos proporcionam igualmente pensar a partir de uma perspectiva religiosa, de transcendência. Sobretudo do mistério de nossa singularidade, de nossa finitude, de nossa grandeza, de nossa pequenez, de nosso (parafaseando o pensador) encontro nesse vasto panorama de tempo imenso e espaço infinito.
Até que ponto essa experiência nasce de minha própria fonte, de minha própria sede, o que significa que muito provavelmente eu possa estar "fazendo água" é um outro mistério. Seria por demais ingênuo ignorar essa possibilidade de auto ilusão tão útil e benéfica. Não é doce morrer na praia, mas mais salgado é morrer no mar.
Uma coisa é meu universo interior, outra o cosmo, suas limitações e possibilidades. E a incontornável liberdade do outro.
Uma coisa é pensar, outra é fazer.
E o ato criativo nada mais é do que a soma dessas duas. A obra de arte nasce também daí, dessa possibilidade e dessa abertura.
No fim das contas, é melhor estar inspirado do que não estar.

13 agosto, 2010

Platice...

Conversava hoje com uma amiga que conheci recentemente, figura muito legal, e que se queixava a respeito de uma aula chata de grego. Compreensível.
Nada contra o helenismo (ou vocês esquecem que eu cursei filosofia?). Aprender novos códigos sempre encerra um quê de trabalho metódico e paciente, seja um sistema de escrita alfabética, seja numérico (quem se esquece da tabuada? E quem se lembra? rs). Idiomas não fogem à regra. São um pé no saco pra aprender. É consenso que não há modo melhor de treinar uma língua a não ser a prática.
Penso, contudo, que não há nada na vida que, num dado momento, se veja livre da metade entediante, da porção chata. Mas a chatice é subestimada, sabe! Ela é em grande parte responsável pela diversão. Senão por causalidade ou semelhança, ao menos por contigüidade. Bem, definitivamente por contraste! rsrs

O legal é que não há um consenso sobre o que é chato.
Eu, por exemplo, me divirto à beça com a teoria.
Teoricamente, chato mesmo é o vice-versa...
Esquece, amiga, tô falando grego... kkk

Kantico doS kanticOS

Leonard: It must be hell inside your head.
Sheldon: [pause] At times. ...

(from 'The Big Bang Theory' show)

Você já parou pra pensar na gratuidade das relações interpessoais?
Muito se apregoa que não devemos usar as pessoas.
Pessoalmente, tento me convencer de que esta é a meta absoluta da minha vida, a ponto de abrir mão de todas as outras pessoas, cercando-me de coisas e idéias.
O que é a amizade senão o conforto da afirmação recíproca das consciências, garantia de estar certo e poder assim deitar a cabeça no travesseiro sem sombras de dúvidas? A facilidade de uma série de vantagens práticas e a garantia de recompensas afetivas?
É evidente que consideramos esses intercâmbios de afeto e aprovação como vitais.
Mas até que ponto são desinteressados, gratuitos?
Por quais motivos nos permitimos cercar por determinadas pessoas, evitando outras? Não é algo sumamente projetivo e conveniente? Buscar o prazer e evitar a dor? E tais pessoas não se convertem em meios para essa satisfação?
Algumas pessoas poderiam argumentar que estas são típicas situações 'win/win': fulano me faz bem, eu faço bem para fulano. O que constitui isso senão uma troca? E onde entra aí a tão propagada - e propagandeada - gratuidade? Não será ela um lenitivo para nossas consciências, essas pedras fundamentais que não fazem senão justificar nossas hipocrisias e ratificar nossos procedimentos utitlitaristas?
E o amor? Seria uma progressão lógica de uma amizade, reafirmação biunívoca, onde também os corpos entrariam no contrato?
Que seja triste propor assim nesses termos, eu aceito (embora não menos digno, nem definitivamente menos lógico que qualquer outro procedimento). Que me acusem de simplista, reducionista, maluco, ingrato, doente ou chato elevado a Googl... aceito. Honestamente eu não me inclinaria a discordar de nenhuma dessas caracterizações. Mas não deflito. Minha compulsão analítica persiste.
O que acontece é que, ou se admite forçosamente que usamos e somos usados, somos (também) objetos e a gratuidade é uma grande balela que serve de mero catalisador para nossas ações puramente egoístas, ou isso, ou que me queiram provar o contrário, de onde resultaria que qualquer esboço ou tentativa de fazê-lo já seria uma reação narcísica por parte de algum pretenso desinteressado - profundamente interessado em ter razão - ao meu discurso egoísta filhodaputa.
Além disso, como condenar alguém que conscientemente e de modo deliberado, seja no atacado, seja no varejo, instrumentaliza pessoas? Íntima ou institucionalmente? Atire a primeira pedra...
O que seria fraqueza, afinal? Resignar-se ao 'somos todos imperfeitos e cometemos erros...' ou prescindir radicalmente de nossas relações?
Presumo que a segunda hipótese seja dificilmente passível de verificação visto que as pessoas sofrem de um sério impulso de se auto afirmarem, ao nível da perpetuação (alegando as intenções mais altruísticas ou simplesmente alegando que a camisinha definitivamente interfere na sensibilidade. Além do mais, o intolerável tédio de uma existência absolutamente solitária nada tem que ver com isso). Resta a constatação de que tal alternativa resulta impraticável.
De qualquer modo recaímos num cálculo pragmático da matemática prazer x dor. Escolhe-se a menos nociva tendo em vista preponderantemente a si mesmo, obviamente.
A natureza daquilo sobre que me questiono por detrás dos critérios através dos quais "deixamos entrar quem quisermos em nossas vidas" e o uso pragmático ou não que delas fazemos, resulta demasiado clara e evidente para todos nós: o que seja a liberdade de escolha ou sua ausência, a questão da responsabilidade pelas nossas próprias razões em oposição ao caráter pretensamente inautêntico da existência e, em última instância, o que seja a confiança.
O fato de querer expô-lo publicamente revela algo não menos importante, quer uma urgência de avaliação e tentativa rigorosa de reflexão, quer uma necessidade de compartilhar tais raciocínios e conteúdos. Talvez um primeiro movimento dialético a espera de contrapartida (e nesse sentido, uma insuficiência e esgotamento da capacidade autoanalítica).
Que a linguagem utilizada aqui para expressar tais raciocínios é um dado relevante e sobremaneira eloqüente em relação a pelo menos um de meus critérios de seleção construídos até então, não há dúvida. Ele revela coisas importantes porque significativas (sintomáticas?)sobre minha própria pessoa. Posto isto, temos algo como certo. Mas devemos nos perguntar: constitui esse um critério válido? E em relação a que? Eis a questão.
Tomando como pressuposto que não devemos nunca tomar nenhuma pessoa como meio para um fim exterior a ela, à sua dignidade de pessoa minha inclinação seria de que o mais acertado seria o abster-se o máximo possível dos contatos e relações pessoais. A convivência, entretanto, é um dado, não há dúvida. Nada do que eu fizer mudará absolutamente a ordem das coisas enquanto sociedade e cultura. Resta a minha convicção pessoal de fazer o que minha consciência individual julga como acertado para a maioria e tomar como exemplar tal comportamento, desejável para todos como regra universal, ou aceitar a hipocrisia como elemento integrante do protocolo social, aceitar usar e ser usado, na medida do possível estabelecendo de antemão as regras do contrato (esperando que um outro tão imperfeito e egoísta quanto eu faça o mesmo) e reconhecer-me como mais um ser humano falível e contraditório, suscetível de minhas obscuras motivações inconscientes, fraco de vontade e de propósito, um tanto ilógico porque também bestial, naturalmente interesseiro e egoísta, etc., etc., etc. Acima de tudo irmanamente hipócrita.

12 agosto, 2010

O que te dá mais prazer?

Sonhar ou contar o sonho?
Chorar ou conter o choro?

Complete com NÃO; EU; VOCÊ; ME; TE; ALGO, ASSIM; ALGUÉM; NINGUÉM; TUDO; NADA; SEMPRE; JAMAIS.



Não tenho que:

.......entender........
.......merecer........
.......perdoar........, exceto a mim mesmo.
se não puder consertar.......,
sofrer ........ na mesma proporção.
.......declinar........
.......abster de........
.......negar........
.......estar à altura de........
.......corresponder a........
.......superar........
.......extrapolar........(dentro dos limites).
.......aperfeiçoar........
.......salvar........
.......esperar........
.......fazer........
.......fingir.......
.......ser........
.......mudar.......
.......completar.......