14 fevereiro, 2008

Porque criar é destruir.

(Sem título, grafite editado digitalmente, A4)

De todo o meu passado
Boas e más recordações
Quero viver meu presente
E lembrar tudo depois...

Nessa vida passageira
Eu sou eu, você é você
Isso é o que mais me agrada
Isso é o que me faz dizer...

Que vejo flores em você!...

De todo o meu passado
Boas e más recordações
Quero viver meu presente
E lembrar tudo depois...

Nessa vida passageira
Eu sou eu, você é você
Isso é o que mais me agrada
Isso é o que me faz dizer...

Que vejo flores em você!
Que vejo flores em você!
Que vejo flores em você!
Que vejo flores em você!...

(Flores em você, Ira!)

Acho que minha anima está um pouquiiiiiiiiinho detonada!

Ânimo!

(Bem, lá se foi o senso de humor também! Esquece a piada infame... Ânimo?! Tsc, tsc...)

13 fevereiro, 2008

Número é uma palavra. Ele é palavra. Mente, palavra. Tudo palavra.

("A ...", grafite editado digitalmente, A4) 

Hera, ela, deusa, Kali, bela, pura, Ísis, Inanna, Ístar, Annapurna, noturna, Hel, céu, Vênus, Deméter, Eva, Medusa, dura, Sibila, Cibele, minha, dona, Madonna, Pandora, Helena de Tróia,  Atena, Senhora, Virgem, reza, ave, Maria, ora, Madalena, Babilônia, Besta, Wicca, bruxa, fada, ogra, santa, sua, aranha, nua, Nut, noite, Diana, lua, teia, cheia, teta, terra, serpente, água, fonte, minguante, Gaia, generosa, donzela, ardente, solícita, cobra, venenosa, rapariga, esfinge, sereia, carne, castradora, muralha, fenda, fortaleza, delicada, labirinto, espelho, árvore, porta, casa, poço, moça, Réia, rainha, menarca, racha, láctea, Andrômeda, galáxia, estrela, vaca, sede, lágrima, ninho, gazela, redentora, porca, pérola, costela, ostra, outra, gruta, fêmea, fera, devoradora, vagina, irmã, esposa, mulher, mater, matéria, madrasta, mãe, mama, útero, universo, menopausa, vó, sábia, vida, voz, morte, palavra... 

"_Rolei a escada... não foi nada." (cantarolando) "_Lá vem o pato..."

("Maledita", grafite editado digitalmente, A4)

"Vem!", exclamou Matilda alegre. Ambrosio teve um estremecimento e esperou, aterrorizado, o demônio." (Mathew G. Lewis in O Monge, 1796)

"Donamatildamalditatalidomida: malemaladanadateanimaelatedominaamaledita!"

("Estudo de figura humana", esferográfica digitalmente editada, A4)

Da solidão

Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à idéia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu "O corvo": o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a pungente litania do "nunca mais".

Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o ser amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade - que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? - cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão.

Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n'alma na solidão dos últimos dias do pintor Toulouse-Lautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n'alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono?

Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza... Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão?

Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.




(Vinícius de Moraes in "Para viver um grande amor - crônicas e poemas")



28 janeiro, 2008

... e era, a um só tempo, herói e donzela, monstro e abismo...


("Antiaquarium", mista, A3)


Sentiu-se como quem vagueia nas florestas do fundo do mar, perdido num mundo monstruoso onde ele próprio era o monstro. Estava só. O passado morto, o futuro inimaginável. (1984, George Orwell)

Hoje sonhei com enormes canhões primitivos movidos à base de pólvora e pedras ígneas, e que vomitavam pirotécnicos sobre uma cidade antiga... Grandes canhões de madeira, robustos, mas descartáveis; um ataque de selvagens à fortaleza dos mocinhos; sonhei com revoluções feministas ecoando pelas ruas, coros de vozes femininas, desafiadoras; viagens a lugares, estranhamente familiares, ora infestados de figurantes, ora ermos; galerias transversais, sex shops (e a fobia de adentrá-los, mesmo vislumbrá-los ao longe - vergonha em ser visto?); tive desencontros, a pé, de motocilcleta, intrigas virtuais, delações ao pé do ouvido... E uma imponente baleia azul que surgia, displiscente, bem de encontro a mim através de um enorme aquário amarelado (me saudava?). E, da mesma maneira que veio, sumiu, sacudindo lateralmente uma enorme e cuidadosamente recortada cauda de peixe (?)... hoje sonhei (melhor seria dizer "_ Hoje acordei depois de um sonho...", porque não tenho absoluta certeza de quem sonhou, nem que hoje, nem que lugar) E nessa lógica, meio sem razão dos sonhos, acordei com a sensação de fazer as pazes com alguma parte secreta de mim mesmo...