05 setembro, 2010

Ai, minhas, mônadas... quântica besteira!

Às vezes tenho a impressão de que os sentimentos como a alegria e a tristeza vêm não de modo lógico, relacionados a eventos exteriores, objetivos, mas de secretos deslocamentos moleculares totalmente aleatórios aos quais simplesmente nos habituamos a atribuir explicações de natureza causal.
Estou alegre agorinha mesmo, por exemp...
Ah, malditos átomos! Passou! rs

04 setembro, 2010

Crônica do Amor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim.

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

(Arnaldo Jabor)

03 setembro, 2010

Ensimesmado

(...)

Dorgas, mano!

Saí correndo, subi a escada e fui dar uma de David Lee Roth ao som de Jump: caí com a garrafa térmica, ralei o cotovelo e quebrei minha caneca preta. uhasiuhasusauihsauha
Ainda bem que nessas horas ninguém tem uma câmera.
Preciso tomar menos café! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Joker face.

Li grande parte do que você escreveu. Malgrado as diferenças, de idade e de temperamento, e a grande vaidade de consumidor, tão entranhada - a ilusão de ser sempre único -, me reconheci em muita coisa. Releio vez por outra, tentando ao máximo não ser intrometido ou inconveniente, que são coisas que eu realmente não suporto.
Já passei bom tempo te olhando, em carne e pixels. Não me cansei ainda porque parece, enigmaticamente, que cada imagem revela uma pessoa sempre diversa. Todas elas me fazem sorrir. Umas mais que outras.
Ouvi as músicas. Tentei entender mas quando me dou conta já perdi o fio do pensamento, abandonado ao timbre peculiar da dona da voz. Assim não funciona!
De você sei quase nada. Mas é sempre uma alegria poder desfrutar desses pequenos fragmentos, tentando compor as lacunas do mapa, restaurar a pintura, decifrar o alfabeto.
Não sei o que é exclusivamente meu. Mas sei algo do que é exclusivamente seu.
Sei do teu abraço, por exemplo, que é um bálsamo que costumas administrar (aconselho, e seria uma maravilha se todo mundo experimentasse ao menos um desses na vida!) Pessoalmente não sou muito de distribuir abraços. Ou mesmo sorrisos.
Sei do cheiro bom dos teus cabelos.
Sei do teu sorriso e do teu olhar atento (quero muito conhecer o distraído, que beleza deve ser...).
É possível que eu esteja pensando em você agora, enquanto lês (se VOCÊ lê. Alguma graça está em não saber, não é?). É possível que esteja com você na cuca e é bastante provável que esteja, a qualquer hora do dia, quando você levantar o sobrolho se perguntando: "_Acaso esse camarada pensa em mim?" A resposta é sim, Schroedinger, com menores chances entre 19h30 e 22h30 (isso dependendo do dia da semana).
Teu quebra cabeça monopoliza meus miolos durante grande parte do dia. Isso porque, pra bem ou pra mal, funciono movido pela beleza; no universal ou no particular, seja a Idéia sublime de Platão, sejam as encarnações de beleza como a sua, encantadoras e fascinantes, como nas serpentes e nos felinos todos.
Não espero que sustentes a carga de ser a 'musa inspiradora' que, sei, a minha projeção é problema meu.
Também não reclamo. Só não quero mesmo ser intrusivo.
Quando dei por mim, tinha me habituado a jogar Paciência. Sinto contudo que, mesmo perdendo (que no final das contas a gente sempre perde algo), essa parceria relmente merece ao menos uma partida jogada.
Você escolhe. Corta o barato, ou o baralho.

01 setembro, 2010

A m e l h o r a do dia




O seu olhar lá fora
O seu olhar no céu
O seu olhar demora
O seu olhar no meu
O seu olhar seu olhar melhora
Melhora o meu

Onde a brasa mora
E devora o breu
Como a chuva molha
O que se escondeu
O seu olhar seu olhar melhora
Melhora o meu

O seu olhar agora
O seu olhar nasceu
O seu olhar me olha
O seu olhar é seu
O seu olhar seu olhar melhora
Melhora o meu

(Composição: Arnaldo Antunes/ Paulo Tatit)

31 agosto, 2010

(...) Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! Mas quem ganhou?". É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste. (...)

(Trecho de "Para Maria da Graça", de Paulo Mendes Campos)

30 agosto, 2010

Inquietude

Alvoroço repentino, súbita vontade de criar algo, dar vazão ao gestual anárquico do corpo que segue suas próprias regras, lutando contra essa obsessão da ordem racional e do auto-controle. Vontade de sujar tudo de cores como num gozo contido e longamente esperado.
Sim, gozar pra pelo menos dessa vez abortar Atená, ave cesária que irrompe à janela do ovo-cuca, nesse parto mais das vezes não natural.
Sim, preparar o gozo, que outra coisa se gesta e engole os miolos com pensamentos e tudo. Ave noturna, soturna e agourenta. Equidistante do galo madrugador, que canta a aurora do que há de vir e do corvo que colhe o brilho do olho que não mais há de ver.
Pomba-rola, que se infla ternamente no tesão da manhã. Pomba paz e amor.
Fênix renascida no peito. Se levanta.
Grávido de um parasita autoimplantado , paralisado, atônito e exultante, espero em dores, carne e entranhas carcomidas, ligamentos rompidos, o reverberar do grito primal espumado.
Viro do avesso.
Morro e renasço univitelino. Monstro ipsilone de carne e som, bicéfalo apolodionisíaco.

Vejo você onde não tem.

Sem qualquer esperança
Detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
Na avenida nossa senhora de copacabana, domingo,
Enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.
Sem qualquer esperança
Te espero.
Na multidão que vai e vem
Entra e sai dos bares e cinemas
Surge teu rosto e some
Num vislumbre
E o coração dispara.
Te vejo no restaurante
Na fila do cinema, de azul
Diriges um automóvel, a pé
Cruzas a rua
Miragem
Que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
E se esvai nas nuvens.
A cidade é grande
Tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
Talvez na rua ao lado, talvez na praia
Talvez converses num bar distante
Ou no terraço desse edifício em frente,
Talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
Misturada às pessoas que vejo ao longo da avenida.
Mas que esperança! tenho
Uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
Disseminada pela cidade.
A noite se ergue comercial
Nas constelações da avenida.
Sem qualquer esperança
Continuo
E meu coração vai repetindo teu nome
Abafado pelo barulho dos motores
Solto ao fumo da gasolina queimada.

Pela Rua, poema de Ferreira GULLAR in Dentro da noite veloz (1962-75)

27 agosto, 2010

Tempo presente.

(...)
Sempre faz tremer
Sempre faz pensar
Nos abismos da ilusão
Quando, como e onde
Vai parar meu coração?
Há no seu olhar
Algo de saudade
De um tempo ou lugar
Na eternidade
Eu quisera ter
Tantos anos-luz
Quantos fosse precisar
Pra cruzar o túnel
Do tempo do seu olhar.

(Trecho da canção Seu Olhar de Gilberto Gil, do álbum Dia Dorim Noite Neon, 1985)



Não importa o que quer que pensemos que temos de especial. Tudo o que temos é tempo.
É a única coisa que podemos dar ou reter para nós mesmos. É o único valor.
É o que faz de cada um de nós humanos, seja lá o que mais isso possa significar.
Tempo. É o que somos.
Partilhar o tempo e a memória do tempo partilhado.
É preciso resguardar um pouco pra nós mesmos, mas é completa loucura, uma loucura egoísta e inútil (como tudo) guardar todo o tempo pra si mesmo. Ele escorre por entre os dedos. Silício, grão de silêncio. Ampulheta digital.
Esvai-se como água. Evaporamos nós, conjugação de água, sais. Eclipsidramo-nos. Tempo.
Se ebulimos ou se somos vaporizados... Se eclâmpsia, se eclipse... Deixamos um corpo de chão? Nos consumimos? Não importa. Quanto tempo/?/!/...
Pó, de estrelas e sóis. Pó de estradas sois.
Pois importa o passaTempo e você tem sido o meu, Pequena Eternidade. Doce galáxia de tempo condensado. Seus dois olhosburacosnegros.
Do nada ainda desabo, minha cara, fátuo consumado, qualquer meio-dia na sua.