16 agosto, 2009

O nosso amor a gente inventa...

Amor. Invenção pré-moderna, construção abstrata, fenômeno intangível e imensurável, usurpador do trono de Deus, assim constituído anterior e além do divino e do pagão; Aquele que motiva e condiciona nossos pensamentos e ações. In love we trust. Damn it!

So through the eyes love attains the heart:
For the eyes are the scouts of the heart,
And the eyes go reconnoitering
For what it would please the heart to possess.
And when they are in full accord
And firm, all three, in one resolve,
At that time, perfect love is born
From what the eyes have made welcome to the heart.
Not otherwise can love either be born or have commencement
Than by this birth and commencement moved by inclination.

By the grace and by command
Of these three, and from their pleasure,
Love is born, who its fair hope
Goes comforting her friends.
For as all true lovers
Know, love is perfect kindness,
Which is born - there is no doubt -
from the heart and eyes.
The eyes make it blossom; the heart matures it:
Love, which is the fruit of their very seed.

Guiraut de Borneilh (1138-1200 a.D.)

12 agosto, 2009

Ode ao suíno.

Salve o porco e seus derivados:
Carne;
toucinho;
linguiça;
feijoada;
ótima superfície para tatoos;
eficiente "body-removing";
arquitetura anti-lobos;
clubes desportivos;
determinados Senados de determinados países;
salutares hábitos de higiene (e até do chauvinismo há quem goste!)
e agora... férias!
Óinc, óinc. Hurra! pra você também!

09 agosto, 2009

Paixão de seis alças

“Seja como for, em toda a história de amor, mesmo na mais realizada e feliz, há sempre um ingrediente de tristeza, o pressentimento inexorável da perda: porque todos sabemos que essa abundância se acabará um dia. Provavelmente a vida nunca pareça tão efêmera como na melancolia de um amor que termina.”
(Rosa Montero, extraído do livro Paixões)

24 julho, 2009

Leléo da cuca

"(...) E assim tem sido minha vida... sempre me perdendo atrás do que é bonito."
(Selton Melo no filme Lisbela e o Prisioneiro)

07 julho, 2009

"Medo e temor"

Nesse Café Filosófico, Leandro Karnal fala sobre as relações entre o medo e crença, fenômenos estruturais da condição humana. Abordando-os sob as perspectivas fenomenológica e histórica, o palestrante toma como ponto de partida a tradição judaico-cristã.
A Bíblia fala de dois patriarcas da fé: o Deus de Abraão é próximo e afetuoso; o Deus de Moisés lança raios e punições. Na origem da nossa cultura conhecemos um deus consolador e um deus terrível.
Amor ou medo? Qual o principal motivo que leva as pessoas para a religião? .

http://www.cpflcultura.com.br/posts/videos

Leandro Karnal é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e atualmente ministra aulas na UNICAMP na área de História da América. É autor de publicações como Teatro da Fé (Editora Hucitec); História na Sala de Aula ( Editora Contexto) e Estados Unidos - a formação da nação (Editora Contexto).

Foi também curador de diversas exposições, como A Escrita da Memória.

05 julho, 2009

The Talking Asshole Routine

"Did I ever tell you about the man who taught his asshole to talk? His whole abdomen would move up and down you dig farting out the words. It was unlike anything I ever heard.

This ass talk had sort of a gut frequency. It hit you right down there like you gotta go. You know when the old colon gives you the elbow and it feels sorta cold inside, and you know all you have to do is turn loose? Well this talking hit you right down there, a bubbly, thick stagnant sound, a sound you could smell.

This man worked for a carnival you dig, and to start with it was like a novelty ventriliquist act. Real funny, too, at first. He had a number he called “The Better ‘Ole” that was a scream, I tell you. I forget most of it but it was clever. Like, “Oh I say, are you still down there, old thing?”

“Nah I had to go relieve myself.”

After a while the ass start talking on its own. He would go in without anything prepared and his ass would ad-lib and toss the gags back at him every time.

Then it developed sort of teeth-like little raspy in-curving hooks and started eating. He thought this was cute at first and built an act around it, but the asshole would eat its way through his pants and start talking on the street, shouting out it wanted equal rights. It would get drunk, too, and have crying jags nobody loved it and it wanted to be kissed same as any other mouth. Finally it talked all the time day and night, you could hear him for blocks screaming at it to shut up, and beating it with his fist, and sticking candles up it, but nothing did any good and the asshole said to him: “It’s you who will shut up in the end. Not me. Because we dont need you around here any more. I can talk and eat and shit.”

After that he began waking up in the morning with a transparent jelly like a tadpole’s tail all over his mouth. This jelly was what the scientists call un-D.T., Undifferentiated Tissue, which can grow into any kind of flesh on the human body. He would tear it off his mouth and the pieces would stick to his hands like burning gasoline jelly and grow there, grow anywhere on him a glob of it fell. So finally his mouth sealed over, and the whole head would have have amputated spontaneous — (did you know there is a condition occurs in parts of Africa and only among Negroes where the little toe amputates spontaneously?) — except for the eyes you dig. Thats one thing the asshole couldn’t do was see. It needed the eyes. But nerve connections were blocked and infiltrated and atrophied so the brain couldn’t give orders any more. It was trapped in the skull, sealed off. For a while you could see the silent, helpless suffering of the brain behind the eyes, then finally the brain must have died, because the eyes went out, and there was no more feeling in them than a crab’s eyes on the end of a stalk."


(William S. Burroughs in Naked Lunch)

MADRIGAL MELANCÓLICA

O que eu adoro em ti
Não é sua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza

O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Mas é o espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é tua ciência
Do coração dos homens e das coisas

O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz

O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai
O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza
O que adoro em ti lastima-me e consola-me
O que eu adoro em ti é A VIDA !!!

(11 de junho de 1920, Manuel Bandeira).

28 junho, 2009

Trama (Diálogo entre a Cabeça de Jeremy Bentham e A Voz na armadura).

"Todo o fantasma, toda a criatura de arte, para existir, deve ter o seu drama, ou seja, um drama do qual seja personagem e pelo qual é personagem. O drama é a razão de ser do personagem; é a sua função vital: necessária para a sua existência."
(Luigi Pirandello)

Cabeça _Me sinto num jogo do qual eu já deveria saber as regras há muito tempo mas, por alguma razão que igualmente desconheço, faz com que eu perca exatamente aquilo que penso ser o mais valioso. Embora eu também não tenha absoluta certeza desse valor. Não o sinta...
A Voz _E se a vida for uma série de operações matemáticas, cheia de fórmulas, regras e valores? Terás tempo suficiente pra recapitular tanto conteúdo? E se houver uma avaliação, quem é que avalia, e com base em que critérios?
Qual é o termômetro da vida? Felicidade? Prazer? Dor? Sentido? Beleza?
Nesse sentido, isso te confere maior ou menor valor como pessoa?
Cabeça _E o que é uma pessoa? Não é um ser racional por excelência?
Não adoramos todos, aquela fagulha de inteligência que partilhamos com uma pessoa ao perceber, num olhar simultâneo, o que escapa a todos os outros presentes. E não atribuímos a essa pessoa um valor maior do que às outras, que seguem obtusas, sem nada distinguir do ocorrido?
A Voz _Nesse sentido o que amas no outro é tu mesmo, ou a imagem daquilo que acredita seres e não a outra pessoa. Amas acreditar que és especial e amado. Isso, e só isso basta.
Cabeça _Dessa mórbida constatação deriva que não me é permitido sentir o valor de outrem a não ser como reflexo da libido que investi e que já esperava de volta. Quando essa resposta cessa, sinto que o outro, parâmetro de meu valor, perde valor e encanto, o que numa dialética doentia mina também meu valor numa crescente, fria e devastadora bola de neve. Abominável Sísifo de gelo. Narciso prateado.
A Voz _Sim. Mesmo agora enquanto te masturbas com essa névoa de raciocínios tolos não sentes sinceramente que algo te foge de essencial, algo que tu, um ser racional, em já tantos anos percorridos, deveria saber, poder fazer, querê-lo?
Cabeça _Uma coisa é certa: não sinto meu próprio valor como pessoa, a não ser em determinados momentos e em relação a determinados aspectos; acredito saber agora, por exemplo, reproduzir a realidade através do desenho melhor do que um grande número de pessoas o que, teoricamente me confere um status de artista (embora pessoalmente não tenha do que seja arte idéia mais clara e definida e desconfio que ninguém saiba ao certo o que seja isto, desde as pinturas nas cavernas).
A Voz _Agora Lascaux!
Cabeça _Acredito ser isso, não uma dádiva, mas algo que desenvolvi ao longo do tempo através de esforço, repetição e exercício. Não sei por que exatamente o desenho ao invés da escrita, ou da música, por exemplo.
A Voz _Talvez porque, dentre as atividades ligadas aos sentidos seja a mais mensurável e impessoal. A arte visual proporciona, mesmo exige, do artista, um distanciamento necessário, mesmo físico, instrumental, bem como um maior controle; e do fruidor, que se conserve à parte, a contemplar respeitosamente, a julgar.
A mão, motor que guia o desenho, é menos suscetível ao contágio, a despeito do que acontece com o ouvido - e por fim todo o corpo – através da música. Isso sem falar do olfato e paladar relegados ao esquecimento.
Cabeça _O fato é que o desenho funcionou por muito tempo como um álamo, uma válvula de escape, uma sublimação da realidade, uma idealização do mundo hostil e solitário de minha infância, à mercê de uma mãe católica, asséptica, superprotetora e manipuladora , pra quem tudo é pecado, de um pai nulo, alcoólatra, batendo cartão em casa, como fez no seu trabalho durante trinta e cinco anos, além de três irmãs mais velhas, num ambiente predominantemente feminino, cheio de tabus, enigmas e segredos.
A Voz _Pensas que és tu a vingança silenciosa e mal sucedida de teu pai em querer perpetuar-se como macho, realizar o que ele não se sentia ser capaz de fazer, ser Homem? Acaso és um homem?
Cabeça _Talvez menos, uma tranqüilizadora e por isso última tentativa de meu pai de provar que não havia nada de errado consigo mesmo após gerar, uma após outra, três mulheres.
A Voz _Percebes que isso é sobremaneira eloqüente a respeito de tua avaliação em relação ao sexo feminino, não?
Cabeça _Deveras frustrante e embaraçoso... Uma cabeça, é o que sou. Tenho órbitas.
A Voz _No mais...
Cabeça _Fui castrado, é verdade. Nisso minha mãe foi eficiente, podando desde cedo todo e qualquer instinto potencialmente agressivo que pudesse vir a manifestar, torcendo uma possível repetição de meu pai, até ser menos que um homem impotente, uma moça desprotegida. E agora não sei como recuperar minhas bolas. Acaso passeiam convulsas no terço pelos dedos de minha mãe? E onde estarão as bolas de meu pai? Quiçá atrofiadas, curtindo numa garrafa de pinga, à qual recorre religiosamente, sem sucesso.
A Voz _Digo que tens prazer e vergonha imediatas, sei que te deleitas e nutres pavor extremos de assim expor, aberta e prontamente, tuas podridões e vergonhas, à espera de pena e aprovação.
Cabeça _E sinto culpa.
A Voz _E tens culpa.
Cabeça _E, contudo, num átimo de lucidez, a certeza racional de serem coisas tão pequenas, previsíveis, óbvias e mesquinhas, tão sem importância quanto possível perante os olhos matemáticos das pessoas.
A Voz _Como um menino displicente e preguiçoso, relutante em decorar sua tabuada, que afinal é a mesma pra todos. Estás ouvindo? A Voz amável de tua mãe dizendo o quão feio e sem jeito é isso, que não deve ser assim? A suportas? A odeias?
Cabeça _A mim e À Voz. Sem esperanças. Cansa mais ser que interpretar. Prefiro os jogos de azar ao blefe cúmplice e laborioso do si consigo mesmo.
Não entendo e odeio não entender.
A Voz _E porque teu maior medo é ser inadequado e tolo, sofres por não saber...
Cabeça _E minto.
A Voz _E odeias mentir.
Cabeça _E odeio.
A Voz _E odeias odiar.
Cabeça _E vivo embora às vezes odeie viver...
A Voz _Como alguém que não sabe perder. Morres de pena de si e te odeias.
Cabeça _E amo e odeio as pessoas que concordam que é preciso ter pena de sujeito tão pobre, sofrido e impotente a começar por meus pais que me trouxeram a essa farsa degradante de amor, do qual são, somos todos ignorantes. Que, sem dizer, por trás de suas máscaras sorridentes de óleo quente, me fizeram acreditar a vida toda que sou feio, inepto e inadequado, fadado ao mal-sucesso, torpe, indigno de respeito, como eles mesmos, de onde nada de bom poderia sair.
A Voz _Mas não os odeias sobretudo. Odeias bela e indiscriminadamente, como uma chama em presença do oxigênio. És uma bela e funcional máquina dentada, embora algo melancólica, funcionando sempre a meia potência.
Cabeça _Mas, o pior e mais trágico, mais do que acreditar que fui feliz, é que sei que fui feliz, senti que fui feliz e talvez isso seja o mais horrível de tudo, pior que a insípida inconsciência de ser. Afirmo que fui feliz como dois e dois são quatro e já essa verdade matemática, e tudo o que quer que seja verdade, é menor e menos óbvio e menos palpável do que eu dizer que fui feliz. Porque posso demonstrar com quaisquer objetos à mão o que seja quatro.
A Voz _Mais que isso, é imprescindível que tu o faças toda vez.
Cabeça _Ninguém pode me dizer que não fui feliz, nem eu mesmo posso querer negar a mim mesmo. Talvez mais tarde, o faça, negue, me convença, ou simplesmente me aperceba do real (mas e o que é o real? coágulo inexorável, derrame latente, impugnativo, palpitando na cabeça).
A Voz _(irônica) Onde mais?
Cabeça _Cala-te. Sequer isso possuis. Que conheces tu além do peso e do frio?
A Voz _Racionalizar é defender-se.
Cabeça _Mas, se é o caso, não me é possível fazê-lo agora. A ferida ainda está aberta.
A Voz _Deixa-me então subtrair-te a melhor das dores. Não és homem. És formigueiro de uma formiga só. Formiga preguiçosa e covarde, inócua, que não pica por medo do dedo esmagador, embora o saiba sobre si o tempo inteiro e há de vir, mais cedo ou mais tarde - provavelmente mais cedo - teu próprio dedo de Deus, fulminante e corrosivo raio da lente magnífica de um Deus míope, Polifemo que tudo alcança. És uma formiga inútil em seu trajeto aleatório, escritório, cega da significação de seu próprio desenho sobre a terra.
Inseto antimatemático, irrazoável em si, ignorante de seu próprio código, das relações, surdo da poesia, cego da arte, que nada sabe do sentimento, nem do ser.
Inútil que sou - de que vale uma armadura dentro da cabeça? - és sempre menos, absolutamente menos, infinitamente menos que eu.
(Silêncio.)
Súbito A.V.E.