13 fevereiro, 2008

Número é uma palavra. Ele é palavra. Mente, palavra. Tudo palavra.

("A ...", grafite editado digitalmente, A4) 

Hera, ela, deusa, Kali, bela, pura, Ísis, Inanna, Ístar, Annapurna, noturna, Hel, céu, Vênus, Deméter, Eva, Medusa, dura, Sibila, Cibele, minha, dona, Madonna, Pandora, Helena de Tróia,  Atena, Senhora, Virgem, reza, ave, Maria, ora, Madalena, Babilônia, Besta, Wicca, bruxa, fada, ogra, santa, sua, aranha, nua, Nut, noite, Diana, lua, teia, cheia, teta, terra, serpente, água, fonte, minguante, Gaia, generosa, donzela, ardente, solícita, cobra, venenosa, rapariga, esfinge, sereia, carne, castradora, muralha, fenda, fortaleza, delicada, labirinto, espelho, árvore, porta, casa, poço, moça, Réia, rainha, menarca, racha, láctea, Andrômeda, galáxia, estrela, vaca, sede, lágrima, ninho, gazela, redentora, porca, pérola, costela, ostra, outra, gruta, fêmea, fera, devoradora, vagina, irmã, esposa, mulher, mater, matéria, madrasta, mãe, mama, útero, universo, menopausa, vó, sábia, vida, voz, morte, palavra... 

"_Rolei a escada... não foi nada." (cantarolando) "_Lá vem o pato..."

("Maledita", grafite editado digitalmente, A4)

"Vem!", exclamou Matilda alegre. Ambrosio teve um estremecimento e esperou, aterrorizado, o demônio." (Mathew G. Lewis in O Monge, 1796)

"Donamatildamalditatalidomida: malemaladanadateanimaelatedominaamaledita!"

("Estudo de figura humana", esferográfica digitalmente editada, A4)

Da solidão

Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à idéia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu "O corvo": o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a pungente litania do "nunca mais".

Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o ser amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade - que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? - cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão.

Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n'alma na solidão dos últimos dias do pintor Toulouse-Lautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n'alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono?

Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza... Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão?

Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.




(Vinícius de Moraes in "Para viver um grande amor - crônicas e poemas")



28 janeiro, 2008

... e era, a um só tempo, herói e donzela, monstro e abismo...


("Antiaquarium", mista, A3)


Sentiu-se como quem vagueia nas florestas do fundo do mar, perdido num mundo monstruoso onde ele próprio era o monstro. Estava só. O passado morto, o futuro inimaginável. (1984, George Orwell)

Hoje sonhei com enormes canhões primitivos movidos à base de pólvora e pedras ígneas, e que vomitavam pirotécnicos sobre uma cidade antiga... Grandes canhões de madeira, robustos, mas descartáveis; um ataque de selvagens à fortaleza dos mocinhos; sonhei com revoluções feministas ecoando pelas ruas, coros de vozes femininas, desafiadoras; viagens a lugares, estranhamente familiares, ora infestados de figurantes, ora ermos; galerias transversais, sex shops (e a fobia de adentrá-los, mesmo vislumbrá-los ao longe - vergonha em ser visto?); tive desencontros, a pé, de motocilcleta, intrigas virtuais, delações ao pé do ouvido... E uma imponente baleia azul que surgia, displiscente, bem de encontro a mim através de um enorme aquário amarelado (me saudava?). E, da mesma maneira que veio, sumiu, sacudindo lateralmente uma enorme e cuidadosamente recortada cauda de peixe (?)... hoje sonhei (melhor seria dizer "_ Hoje acordei depois de um sonho...", porque não tenho absoluta certeza de quem sonhou, nem que hoje, nem que lugar) E nessa lógica, meio sem razão dos sonhos, acordei com a sensação de fazer as pazes com alguma parte secreta de mim mesmo...

27 janeiro, 2008

Perfil pessoal/ profissional


Vertiginosamente consciente de meus próprios sentimentos enterrados, fervilhando de ressentimentos e mágoas piromaníacas, interminavelmente criativo, inquieto, vulcanicamente explosivo e, não obstante, avesso a guerras e conflitos.
Motivado pelo trabalho como desafio, meio de superação, mais do que como serviço, fonte de status, meio de vida.

Analítico (sobretudo auto analítico, rs), dado a fantasias e incertas divagações mas invariavelmente previsível. Avesso a mudanças, geralmente me atraem mais coisas e máquinas que pessoas.
Cindido, dual, contraditório, ansioso por criar coisas belas e funcionais que compensem minhas inadequações e deficiências... Artesão inacabado, curador ferido.
Procuro cultivar relacionamentos significativos, que resultam poucos e espaçados no tempo e que, independente da duração, são profunda e intensamente vivenciados internamente, embora sejam, às vezes, efetivamente negligenciados. Tenho verdadeiro fascínio e adoração por mulheres com inteligência, firmeza e beleza e admiro lealmente amigos extrovertidos e expressivos, capazes de demonstrar, verbal ou fisicamente, o que em mim permanece mudo.
Carente de objetividade e sensível à crítica, "o que aconteceu" é o que eu senti, minha verdade, poço fundo de gratidão reverente ou rancor efervescente. Posso ser, simultaneamente , disponível, simpático e prestativo e também o "cara legal", sustentando a máscara de óleo quente, pequeno Atlas da maciça raiva do mundo.
Muitas vezes pai e mãe de mim mesmo, casado comigo mesmo e a mim mesmo infiel, sou porém fértil no campo das idéias, semeador de formas e de cores, pai coruja de imagens, metáforas e infâmias.
Bastante metódico (i. é. chato), analítico (ou seja, krika) e brilhante (leia-se modesto).
Posso encontrar dificuldade para articular minha profunda introspecção de modo a fazê-la compreensível para os outros. Valorizo a precisão no pensar e no falar. Para mim é importante ser preciso, conciso e articulado. Observo a inconsistência, as contradições e os lapsos no discurso alheio. Examino cuidadosamente todas as opções e chego a conclusões definidas e bem fundamentadas.
Curioso e compreensivo. Discreto, reservado e introspectivo. Constantemente em busca da coerência interna.
Tenho uma vida interior bastante rica de pensamentos e idéias e minha curiosidade é dirigida à busca do entendimento do Universo, das suas verdades e princípios.
Aprecio atividades teóricas ou científicas, gosto de resolver problemas através da análise lógica. Interessado em idéias arrojadas, não me prendo em assuntos corriqueiros ou fragmentados.
Persevero até compreender um assunto em toda a sua complexidade; passo logo para outro, assim que o primeiro tiver sido aprendido.
Costumo criar uma imagem mental de como as coisas deveriam ser, e vivo tentando aperfeiçoar a mim mesmo, aos outros, e a tudo o que há a minha volta. Sustentando padrões muito altos, sou um perfeccionista. Consequentemente, muito duro comigo mesmo, privando do valor devido minhas conquistas, na esfera pessoal como na profissional.
Estimulo a mim mesmo e aos outros para alcançar os próprios objetivos e autodesenvolvimento.
Posso me deixar levar pela necessidade exagerada de conceituar e reduzir tudo a um esquema classificatório.
Preciso tentar equilibrar meus ideais com as necessidades do dia-a-dia. Quando a realidade não se encaixa no meu modelo de perfeição fico frustrado e excessivamente autocrítico.
Cético, determinado e teimoso, preciso aprender a deixar de lado as coisas menos importantes para alcançar as mais importantes. 
Criativo no plano das idéias, confio nas minhas percepções e inspirações, mantendo-me indiferente aos conceitos estabelecidos e ao ceticismo alheio.
Quando estou atuando em áreas de meu interesse possuo excelente força para organizar uma tarefa e concluí-la sem auxílio. Tenho uma grande necessidade de autonomia e independência. Prefiro sempre fazer as coisas a meu modo e quero controlar a execução de seus planos. Gosto de trabalhar com independência, sem interrupções e de atuar em ambientes flexíveis.
Costumo encontrar dificuldade para tocar as coisas até a sua finalização.
Detesto supervisionar os outros ou mediar conflitos.
Sobretudo detesto quem, exaustivamente, só fala de si mesmo. rs

Às vezes sou cínico, irônico... e adoro proparoxítonas.

Quem é você que leu toda essa porcaria? Não leve tão a sério!

26 janeiro, 2008

À inesperada e controversa amizade

("Estudo para San" - grafite, editado digitalmente, A4)

Pequenina tosca poesia

Sandra é um pássaro de plumagem magnífica e canto hipnótico.
Estará à espera de uma gaiola de prata? E quem se atreve? 
Sandra é um gato preto que convida em código: 
Façamos as malas ou fiquemos na casa.
Mas o que escolherá o felino? A casa? Ou quem a leve? 
  
Com que suave som já nasce essa sereia bela, 
Que ao cantar, no tom o contém?  
Que doce bálsamo, veneno, néctar,
Verte aquela que o cântaro sustém? 
E seu rosto, busto, torso (tudo o mais), 
Será que numa aquarela tudo vai bem? 
E se eu torço, e justo, busca a rede e traz, 
Num aquário ela fica (nada bem)? 

Sandra é fenômeno da natureza,.
É seca que queima sem remorso, 
É onda que sem piedade arrasta, 
E um grande tsunami essa pequena... 
Chuva que salva sem pedir em troca, 
É cometa, é mar e terremoto 
É vento que a tudo despedaça, 
Raio que revela, trovão que apequena...  

San é lua? 

Lua, alheia, que influi em tudo, 
Podes mexer em seu próprio ciclo infinito? 
E quando à míngua, ousas contemplar 
Na maré cheia seu reflexo, espelho esquisito? 

San é sol? Sol é sun. 
Só é sol, quem é são. 
San é sol. Só é San?. 
Quem é sol? Quem é San? 

É anjo (nada!), essa fada (finge?)? 
É ninfa, naja? Ou é ninja, esfinge? 
O que ela olha vira pedra. 
O que eu toco vira ouro. 
Musa, mina Medusa – 
Deus, me dás medos demais. 
Deimos, deus nu, medonho, 
tu, mais amenos me dás. 
Medo, desumano demo... 
Sê menos medo, Midas!

24 janeiro, 2008


("Estudo para Copro e Aura" - pastel seco, A4)

Ego 1x0.

("Estudo: padrões aleatórios" - aquarela, A4)

(...) Sonhou com muitas e muitas coisas. Acordou e, à medida em que recordava cada uma delas, ia tentando analisar aquilo de que lembrava, tudo o que viu, ouviu e fez. Pairava sobre si um pressentimento uniforme, crescente, de que tudo aquilo tinha algo a ver com uma única e bem definida coisa, que ironicamente não aparecera no sonho. Permaneceu assim por uns dez minutos, sentindo o coração movido, a palpitar. Levantou. Cruzou a sala, ofegante embora a passos lentos, o corpo começando a acordar... Debruçou na janela do décimo andar, cego da paisagem, e pensou. Pensou. E concluiu que todo o enredo do sonho era determinado pela infeliz acomodação dos seus órgãos internos na geografia acidentada do sofá, pela zoada vespertina do trânsito e pelo choro estridente d'alguma furadeira  na eterna reforma circunvizinha. Ele era Alice. É inútil procurar significado (disse para si mesmo, naquele dialeto ancestral e idiossincrático dos solitários, uma língua inata e morta). É inútil. Não há nada de subjetivo em sonhos. No fim os cientistas explicarão. É questão de tempo. Provavelmente não viverei pra ver, mas é sempre assim... É tudo inútil.

Sentou ao computador. Escreveu, a princípio fácil, depois escolhendo as palavras, selecionando-as. Depois substituindo-as. Apoderou-se do dicionário, pediu ajuda, introduziu preciosismos. E... no final, o que conseguiu?

Perdeu a possibilidade de relembrar o que ainda era fresco na movediça superfície onírica. A vigília barganhou, sorrateira, laços por lapsos e do enredo fugidio do sonho sobrou exclusivamente o  imediatamente lembrado e já irremediavelmente inesquecível. Perdeu uma rica oportunidade de autoconhecimento (mas não saiu ileso; isso, definitivamente não). Livrou-se, é verdade (e só em parte), da incômoda sensação, incógnita, persecutória e recorrente, característica dos sonhos (pelo menos dos seus próprios). Mas, acima de tudo, - e nessa altura sorriu, tamborilando os dedos nas teclas, embalado dentro de sua cabeça que meneava; terminou a última linha e percorreu os olhos pelo monitor numa última e narcísica revisão - acima de tudo, convenceu-se e  parabenizou-se a si mesmo: "_É um bom texto, vou postar no blog."

"A coisa nenhuma deveria ser dado um nome, pois há perigo de que esse nome a transforme."
(Virginia Woolf)

("Estudo: padrões aleatórios" - aquarela, A4)

("Estudo para Contraste" - pastel oleoso, A4)


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo. 

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão. 

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira. 

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta. 

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente. 

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem. 

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte? 

("Traduzir-se", Ferreira Gullar)